FAZ ESCURO MAS EU CANTO

Minha experiência na 34º Bienal de SP e o que Jaider Esbell me causou

A Guerra dos Kanaímés 1 e 2, 2020, Acrílica e posca sobre tela.

Já faz um tempo que fui a 34º Bienal de Arte de SP com título Faz escuro mas eu canto e prometi que escreveria sobre. Mas conto para vocês que é muita coisa que acontece com a gente numa exposição daquele tamanho, potência e diversidade de obras. E pareceu mais coerente colocar-me em modo de silêncio, contemplação e análise para quando as informações digerissem melhor, eu pudesse contar a experiência para vocês.

Dentre tantas obras, fiquei apaixonada pelo poder das fotografias de Frederick Douglas, reflexiva com os escritos da Carolina Maria de Jesus, impressionada com os bordados de João Cândido, encantada com as cartas de Juraci Dórea, e principalmente, as pinturas de Jaider Esbell. E é nele que vou me ater aqui.

Ele, Jaider, abriu espacinhos em meu coração que eu não sabia existir. Acho isso bastante incrível: a potência que arte tem de abrir espaços dentro da gente para que a gente preencha com aprendizados novos.

Pouco tempo depois de ter conhecido as obras de Jaider, vi a notícia de sua morte. Me veio uma dor profunda e mil questionamentos. Me pareceu que nossa sociedade não tem conseguido sustentar o que é bom por muito tempo. Que não temos conseguido cuidar dos nossos.

Me senti tomada novamente por aquele tsunami de cores vivas. Lembrei perfeitamente das entidades que ele retratava e da relação que elas tinham com um momento importante da minha vida que foi quando tive contato com a medicina sagrada índigena. As cores vibrantes, o verde e roxo, me lembraram o quão grata sou pela oportunidade de comungar de uma espiritualidade que entende a natureza com perfeição, sem todo esse maniqueísmo europeu que nos foi ensinado. Grata por termos essa profunda e ancestral sabedoria que parece viva como nunca.

Carta ao Velho Mundo, 2018/2019, Livro de luxo com 400 páginas e desenhos e textos produzidos com pincel Posca.

Como esse homem incrível tratava com cuidado a educação dos pequenos makuxis me marcou como professora. A preocupação de todos eles com a Amazônia e em despertar em nós um olhar crítico para a história que nos contaram sobre o nosso país.

Saber que até então eu nunca tinha ouvido falar desse povo me fez me ligar que são tempos de escuridão há alguns muitos anos para eles e para nós, que me falta muito a aprender sobre minha história, que é preciso urgentemente olhar para os povos nativos. Que nossas crianças necessitam conhecer o outro lado. Que não podemos fechar os olhos para o extermínio da nossa terra.

O que tiro bonito de toda a trajetória desse artista é exatamente o que ele se propôs a fazer nesse mundo: amar, lutar, ensinar e defender com garra a história e a terra que é também deles por direito.

A PALAVRA É MEU DOMÍNIO SOBRE O MUNDO

O processo trabalhoso da escrita e as crises

Um querido professor muito falava que não existe inspiração para a escrita e sim que há trabalho, muito trabalho. Mesmo lá atrás quando os poetas gregos invocavam as musas pedindo permissão para cantar uma poesia não me soa como inspiração. Essa entidade tão mística, me parece ter mais relação com um estado de trabalho mental, cujas referências se organizam para que enfim se inicie o processo da escrita.

Digo isso porque ainda questiono a minha relação com a escrita e essa falsa inspiração que às vezes a gente espera acontecer como mágica, ainda mais em tempo de pandemia. É preciso se colocar à disposição da escrita se prostrando em humildade e perguntando: o que é que você quer de mim?

Vezes também é preciso de uma injeção de ânimo. Ânimo esse que pode ser uma conversa profunda, uma paixão, um filme, um livro e essas coisas que normalmente emocionam. Algo que também considero imprescindível é ter por perto pessoas que acreditam em nossas crenças e loucuras poéticas, nossos ideais políticos e nossos valores.

Me afastei da escrita, é verdade. Não temos vivido tempos muito “normais”. Tem uma crise de saúde, econômica e política que me marcam profundamente. Acredito que inexiste quem não tem sido atravessado por elas. É fato que sinto que essa crise também em mim.

Porém, há um tempo tenho me feito essa pergunta que fiz aí em cima, demora, mas aos poucos as palavras vêm, rebusco as memórias e as ideações futuras, cutuco uma feridinha ali, trabalho e faço algumas questões aqui, respondo outras que nem percebi ter feito. A hora que vejo, dominei o mundo!

As próximas publicação escrevo hoje, 20 de janeiro, injetada por essa dose de ânimo, peço que às musas brasileiras, àquelas das crônicas da Clarice em A descoberta do mundo, me ajudem a não perder nada do trabalho que tenho me colocado à disposição!

MINHA ZONA DE CONFORTO É A ZONA DE CONFLITO

Um experimento de linguagem que parece ter terminado poesia

Landscape With The Shipwreck Of Aeneas, 1603 – Peter Paul Rubens

Sempre tive dificuldade em escrever em terceira pessoa. É difícil se colocar no lugar comum. É do meu íntimo que vêm, desse modo, como não usar o eu? Talvez eu tenha aprendido a escrever por meio da escrita terapêutica antes mesmo de saber o que é isso. Aprendi a escrever com Clarice e essa foi minha sentença.

Dada minha liberdade poética, continuo para devaneiar sobre alguns versos de uma música do Black Alien que há tempos eu gosto, mas que há pouco me levou a pensar tanto: “A zona de conforto é o lugar aonde os sonhos morrem, a zona de conflito é onde esses covardes correm.”

Parece algo clichê, quase que uma frase de um coach, um negativista ou um méritocrata. Porém, penso que nascemos em um mundo tão cheio de conceitos prontos que mal percebemos a possibilidade de questioná-los. E não consigo imaginar um lugar mais conflitante que questionar nossas verdades absolutas.

Não parto do olhar daquele que julga que todo mundo pode conseguir algo desde que acredite. Inclusive não acredito nisso e esse não é meu ponto. Parto do olhar de entender conflito como coragem.

Sempre me senti bastante atraída pelo conflito. Não sei quando me encantei pela primeira vez, mas é que essa palavra já me levou para caminhos tão imprevisíveis que eu passei a gostar do lugar que ele pode me levar ainda que eu o desconheça.

A zona de conforto me parece bastante broxante ainda que eu não me atraia pela ideia do “trabalhe enquanto eles dormem”, a não ser que o trabalhar tenha mais a ver com o estar atento para não cair na mesmice de ser a mesma pessoa quem eu fui ontem. Eu gosto do conforto desde que não seja o conforto também imposto. Entender o que é o conforto que lhe foi imposto é trabalho seu e não meu! Se vire!

Sinto saudades de alguns confortos filosóficos que já repousei, mas que delícia foi poder questioná-los e viver tantos outros durante a minha vida.

A ideia é não deixar a engrenagem do pensar parar, é aí que os sonhos morrem e é daí que os covardes correm. Vocês vão mesmo deixar que lhe ditem o que pensar?

Parece que já estava premeditado, que por onde eu passasse não ficaria pedra sobre pedra. Eu destruo tijolo por tijolo os templos onde você coloca no altar suas verdades. Às vezes nem quero, mas quem deve me governar por aí é Éolo, Iansã ou mesmo aquele Jesus anti farizeus.

Se eu disser que isso só me trás alegria é mentira. Talvez nem aconselharia. Mas é que é que dá tesão ver portais se abrindo! É como se de tempos em tempos eu pudesse viver uma vida diferente dentro dessa que estou agora.

Dizem que meu sol em aquário justifica. Eu me nego também a acreditar com totalidade, se aí eu colocar a verdade o que mais vou encontrar?

Eu me canso dos covardes com facilidade. Se acomodam num lugar fácil, arrumam suas camas que com o tempo lhe retribuem com dores nas costas, ficam amargurados e insistem em não deixar o mundo andar.

A gente já sabe, é cinco passos para frente e um covarde amargurado te puxa três para trás. Triste é, mas quem nasceu para contrariar não consegue se contentar.

Muitas vezes esqueci de me orgulhar do tornado que existe em mim. Esqueço também que existem outros tantos como eu. Mas de tempo em tempo renasce a fênix, que numa espiral revigora e me lembra: meus escritos conflitantes são para sempre e esses otários jamais serão.

O TESÃO ENQUANTO POESIA

Ensaio sobre um conceito particular de tesão

Ulisses e as Sereias, Herbert James Draper, (1909)

Desde muito nova entendi o tesão como fonte de energia inabalável, assim como entendo a poesia e até o divino. Sendo eu mulher, era um tanto quanto confuso estabelecer meu espaço dentro dessa minha percepção e conceito. Percorria de um lado a outro sem entender que eu também podia dominar minha sexualidade com autenticidade.

É que assim, eu concebo a palavra tesão como algo tão poético que os moralistas não suportariam descobrir que o que eles mais temem e negam é o que há de mais bonito.

Lembro-me bem de sentir tesão lendo a Hora da estrela, quando o que eu mais queria era salvar Macabéa do mundo péssimo que não podia ser berço suficiente para tudo que ela comportava em si. Eu lembro de ter tesão quando li um salmo de Salomão. Também quando vi um cantor de rua cantar jazz e fazer as pessoas pararem na rua.

Concebo tesão como aquele fogo que sobe e emociona tanto que a gente descobre que estar vivo é uma delícia. Negar o que se tem de vulcânico, é negar o encontro do divino e humano no plano cartesiano. Bonito pensar que algo é subjetivo, mas também tão objetivo que a ciência explica com clareza.

É na caixinha moral do tabu que não encontramos poesia no tesão – e nem tesão na poesia. Colocam esse conceito em uma margem obscena e perversa, limitando-o. Também não se encontra poesia no tesão quando homens discursam sobre isso sem saber lidar com seus desejos. É o animal que somos sendo preso por nós mesmos em uma jaula, no nosso corpo, ou própria mente.

Para falar nisso gosto de pensar nas novelas de cavalaria, aquelas nas quais os cavaleiros nutrem um amor impossível e por isso projeta um sentimento muito maior que qualquer desejo possível pudesse suportar. É isso que os leva para lugares de ebulição de vida.

Penso nessa trova cavaleireisca:

Pois naci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr’aquel matador,
ou que m’ampare del melhor.”

Nuno Fernandes Torneol

Quando se clama em trova o amor nunca sentido, já se ama. Quando se nega o tesão, já se sente. Percebemos que ainda que com medo, há o desejo de senti-lo. O misto de quero e não quero. Há algo que comporte mais tesão que isso?

Gil Vicente escreve que os únicos que não entraram na barca do inferno foram os cavaleiros que negaram a sua própria existência na defesa do cristianismo. Se o conceito aqui apresentado da palavra tesão fosse entendido nesse auto, talvez até esses entrariam na barca, afinal, haja tesão para lutar tanto por algo.

O que aqui devaneio é que o tesão é poético enquanto vida em ebulição, enquanto animal vivo que somos. Tudo aqui escrito não se relaciona com mentira, traição, julgamento, ou ainda, monogamia ou não monogamia, e sim com aceitação do desejo. Dominá-lo não é freiá-lo, mas sim vivê-lo da melhor forma possível, para agir em liberdade conosco e com o outro. Uma maneira fluída de entender e lidar com nossas ebulições e reações do nosso corpo sem precisar demonizar! Um modo de converter o desejo na liberdade de transformamos o tesão em algo produtivo.

A energia sexual é o que há de mais criativo na nossa essência. A paixão, o amor, o tesão é a febre que nosso corpo sente enquanto vivo. Seja homem ou mulher, ao negarmos o poder sobre nossa sexualidade, negamos nossa existência, nosso poder de decisão.

O que tem feito sua estrutura se desestabilizar? O quanto você tem tido tesão na vida!? O que você entende por tesão?

Deixo aqui uma indicação de leitura que permeou meus pensamentos até o fim desse ensaio: Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes. Segue abaixo uma tentativa de conceituar um dos pilares do que entendemos por tesão e deixo aberta todas as questões que esse texto possa trazer.

Obsceno: Desacreditada pela opinião moderna, a sentimentalidade do amor deve ser assumida pelo sujeito apaixonado como uma forte transgressão, que o deixa sozinho e exposto; por uma inversão de valores, é pois essa sentimentalidade que faz hoje o obsceno do amor.” 

Roland Barthes

A NARRATIVA COMO ATO DE LIBERTAÇÃO

Freedom, 2001 – Zenos Frudakis

Ao pensar na questão “O quanto você sabe sobre o que acontece com você?” para iniciar esse texto, minha primeira ação foi analisar se a frase contemplava o que eu queria expressar. Percebi que não. Ao dizer COM VOCÊ eu expressaria algo sobre a percepção que tenho do meu eu na interação/relação com outras coisas.

Resolvi mudar a pergunta para: O quanto você sabe sobre o que acontece EM VOCÊ? Acreditei mais assertiva essa escolha lexical porque EM VOCÊ expressa mais a ideia do eu como lugar/estado a ser analisado. Percebem a diferença?

Eu não teria me dado conta que tenho a capacidade de perceber essa diferença se não fosse a tentativa de narrar algo que parece tão simples. Quando narro algo, mesmo que confuso, eu tenho a oportunidade de organizar, se não, jamais vou saber!

É que eu tenho feito descobertas grandes. Tenho trinta e um anos de vida e há coisas EM MIM que eu não sabia ainda. E que bonito saber que há sempre o que descobrir.

Uma das coisas que descobri por meio da narrativa foi: Algo muito grande acontece em mim quando busco me expressar! Por conseguinte entendi: Tenho medo de me expressar porque tenho medo do que vão pensar sobre mim! Eu não descobriria isso se não tivesse atravessado um caminho suado de reflexões que enfim me fizeram narrar e perceber. Não, eu não perceberia isso se não tivesse passado por esse processo!

Esse atravessamento me colocou em momentos cotidianos da minha vida que eu preferia deixar pra lá. “Aff, eles não fazem diferença nenhuma.” A famosa auto sabotagem. Tudo para não precisar refletir!

Essa constatação de que tenho medo do que vão pensar sobre mim me fez fazer outras grandes descobertas que se relacionam: O medo de que as pessoas descubram o que eu penso sobre mim mesma, minhas auto cobranças, meus julgamentos, meu perfeccionismo!

“É desesperador alguém descobrir algo feio em mim. Meu Deus!” Foi o que pensei confusamente ao narrar o que acontecia EM MIM! Parecia que eu narrava para minha terapeuta, mas, medonhamente, era eu quem me ouvia. Outra Constatação: Minha maior julgadora era eu mesma e não o outro de que eu tinha medo.

Percebi então que a imperfeição é o que faz de mim uma pessoa normal, autêntica e livre. Que constatação libertadora! E como esse lugar de gente normal é mais leve, divertido e encantador. A narração é o ato de liberdade mais honesto que pode ser feito com nós mesmos.

LO PERSONAL ES POLÍTICO

Uma reflexão sobre o individual coletivo

Carol Hanisch, 2017 – Registro fotográfico Alessandra Carrijo

O fato é que antes, numa dessas de bater o desespero no peito, a gente juntava os amigos e ia ocupar os lugares da cidade. Era a cartarse grega acontecendo dentro da gente e na cidade.

Um dia, tive a oportunidade de visitar uma exposição (oportunidade, guardem essa palavra). Nela havia uma obra apresentando letras escritas com sangue: Lo personal es político. Como Clarice olhou o búfalo no zoológico em seu conto, rolou ali um misto de ódio e amor e uma constatação que malemá se organizava na minha mente: é isso. Fazia sentido para mim. Era a retórica. Ela dizia que o pessoal era político, uma artista, pessoa, individual, chamada Carol Hanisch representava ali o que eu sentia. Eu tinha me identificado, o pessoal, meu e da artista, era coletivo, político.

Quando eu saia de casa para encontrar os colegas na rua pra fazer e colher arte, a gente fazia política. A rua é poética por isso, é onde as coisas acontecem aos olhos de todos. Não tem parede. Não tem segredo. Por isso é potente. E por conta do vírus a gente se coloca entre paredes. E a catarse acontece onde?

Como disse ali, o pessoal é político. O nosso desespero é político. Você é político, seu ser é político. Como você tem exercido isso?

Eu percebi tarde isso. Lembro como se fosse hoje, em uma aula na faculdade, que me entendi como ser histórico. O que eu entendia por minha história tinha a data do meu nascimento e terminaria com minha morte. Naquele momento, percebi que eu estava exercendo minha existência numa linha histórica, de um bairro, cidade, estado, país, continente, planeta. Onde eu me relacionava, esbarrava, exercia trocas linguísticas, corporais, financeiras, culturais. Eu era parte de um coletivo que tinha história e que eu fazia nele história.

A família é coletivo, a igreja é coletivo, a escola é coletivo. Entendendo assim, ficou mais claro que eu era um ser coletivo, eu era/sou um corpo político. Comecei a entender meus privilégios, questionar minhas verdades, olhar os outros como pessoas construídas e construtoras pelo e para um coletivo.

Lembrei que quando eu ouvia que uma menina na escola tinha “cabelo duro” e ficava quieta, eu estava me calando frente a problemas políticos sociais que sim, eu era parte. Ou quando minha mãe não tinha dinheiro para comprar pão, quando eu ouvi que uma garota não podia ser fácil.

Lembrei que quando eu ouvia a música Fábrica da Legião Urbana lá na minha adolescência eu pensava política, ou quando ouvia Ideologia do Cazuza, ou Como nossos pais da Ellis Regina. Que quando eu tive a oportunidade de pegar um livro chamado Eric com o Pé na estrada na escola e depois ter um canto de silêncio e espaço para ler em casa eu estava usufruindo de um privilégio que deveria ser direito de todos. E que isso me fez ter a oportunidade de ir a um fórum com o grêmio estudantil e ouvir que a voz dos alunos também era importante num ambiente escolar. Quando alguns amigos do meu bairro foram presos enquanto eu começava a faculdade, quando eu tive a oportunidade de trabalhar numa exposição de arte e assim por diante, eu estava sendo um corpo político.

Foi por esse caminho que um dia me vi num sarau, numa casinha pequena vendo artistas se apresentarem. Onde me percebi mulher palestrando sobre Frida Kahlo. Onde me vi tendo o grande privilégio de iniciar o hábito de ir ao teatro, em shows de artistas – não de famosos. Onde me vi em rodas de conversas nas quais homens e mulheres expunham sentimentos (o que era vexatório em tantos outros espaços). Quando vi pessoas de diversas orientações sexuais, raças e gêneros promovendo seus corpos políticos sem risinhos e apontamentos.

Porque toda essa tessitura narrativa? Para contar para vocês que tudo que nós temos somos nós. Que foi através de pessoas, de iniciativa individuais, pessoais, culturais e políticas que me tornei quem eu sou. Que foi no coletivo que encontrei minha potência.

Quando nas redes sociais a gente postava ninguém solta a mão de ninguém, a gente expressava isso: “tudo que nóis tem é nóis” (como dizia Emicida em seu documentário). Que somos potência juntos. Que não tem porque eu parar em mim algo que começou com outras iniciativas individuais/coletivas.

É que é preciso estar atento e forte, que tudo é perigoso, tudo é divino maravilhoso. E que a catarse não pode mais acontecer na rua, mas pode acontecer por meio das palavras, da arte, da literatura. Que bom que posso me catarsear por meio dessa narrativa pessoal e política.

MAR FUTURO

Um mergulho em mar poético

Portinari – Marinha , 1951.
 A deusa clamo e peço permissão
escrever o ano que é começo de futuro
futuro que não cabe em mim, é mistério
onde sereia mora e chama à luz azul
 
Mar é água em profundidade que salga a boca,
e a pele e o coração arde, arde o olho que quer ver mais
o misticismo que o humano não podia levantar o véu
ser poético, gatilho ancestral, caneta e pincel
lugar de pensar grande, o que não se quer: ascende
 
É do futuro que canta, a sereia a me chamar
quem foi que contou o tempo, cortou em lá, aqui e acolá?
o futuro é quem me chama, o presente a começar
a sereia em branco, a nossa brasileira, padroeira Iemanjá
 
O mar é lugar de dentro da gente,
Desagua em onda vaivém
mundaréu de água que não escorreu do olho
de um passado de surto que anseia,
dor de amor, de pai e mãe, de saúde que fraqueja
 
Deixa quebrar e se fazer o todo, a onda
não deixe a margem o seres que dançam, cantam e amam
quebra a onda que faz do instinto ferramenta de oprimir,
trás com a areia funda, o profundo, o sagrado do existir.
 
A vida, a criança, uma mulher com um cajado
que ama, cuida, sangra, chora, sorri
que grita, amamenta, beija e se aflora
um homem que gentil sorri ao permitir
 
Futuro mar, sereia, gente, profundidade,
Onda que vai, vêm, dança, quebra e se joga
Quem disse que a gente não pode se quebrar?
Ser e ver com olhos que ardem tudo desaguado do corpo
Quem disse que a gente não pode se atirar?
 
O futuro é um portal para o mar que está a frente,
Molha o pé, a perna, o sexo, a barriga, os seios
e todo o dentro da gente.
A sereia está chamando!
Sente????

O DIA QUE VOLTEI A ESCREVER COMO QUEM SE DISTINGUE DOS OUTROS

Uma reflexão sobre pessoas, narrativas, retornos e partidas.

Grant Haffner

Passei tempos sem escrever. O que normalmente ocorre com muito menos frequência com que deixo de ler. Como quem não sabe o que vem primeiro o ovo ou a galinha, em alguma ordem ambas aconteceram.

Tenho uma mania estranha de escrever na mesma fluidez com o que tenho lido. Li, recentemente, coisas diversas e fragmentadas. Talvez percorra o mesmo caminho.

Dentre o que li, apresento-vos uma narradora genialmente criança – que é como são as crianças, mesmo quando só em narração. Um homem que pode ser psicopata ou narcisista, caso insista no costume de chamar assim os que priorizam tanto a si mesmo. Também participei – como acontece quando se lê – de uns versos de uma moça que se apaixona romanticamente, aquelas coisas que a gente vive mas nega-se a concordar por ser demodê. E também algo sobre viventes, que por minha conta entendo (sobre)viventes, porque via por cima com olhos de poesia.

O resultado disso é o retorno para o lugar de onde me estabeleci pessoa, na escrita confusa e um tanto quanto subjetiva.

Apresento-vos alguém que se desenvolveu pessoa lendo Clarice Lispector. Não adianta, essa entidade que escreve tão ilegível para quem não sabe ler poesia sempre vai me assombrar. Escrevo que me desenvolvi pessoa porque em uma das definições de um dicionário qualquer, ser pessoa é uma característica peculiar que dá distinção a alguém. Se todas que conhecemos como pessoa são pessoas, não sei!

É disso que venho falar aqui, me parece que somos todas as narrações que temos na memória! E que pessoas nascem de narrações. Já disseram por aí que do verbo se fez carne, não é? E quem ousa narrar algo sem o verbo?

Em via de mão única perfaço um caminho narrativo de que enquanto estive sem ler e escrever, também estive sem ser pessoa. Tem dias que não conseguimos nos distinguir dos outros, o que é compreensível em tempos onde há tanques de guerras bombardeando as pessoas com narrativas que não sabemos se realmente são de pessoas ou robôs.

Onde me encontro? Naquela avenida de mão única, que antes me parecia de mão múltipla como é muito comum em alguns países que nunca estive.

Seguindo a avenida, me deparo com aqueles retornos perigosos que sei ter tido muitos acidentes, onde as pessoas que se perfazem em narrativas se destroem. Consegui, confusamente percorrê-lo. Retornei em um lugar bem longínquo, onde malemá sabia o que era ler/escrever, mas, mesmo sem saber, lia e escrevia. Continuo sem saber se quem vem primeiro é o ovo ou galinha, o desejo ou o encontro/a chegada.

Feito o retorno dificultoso, me percebo num passado, mas não tendo mais o mesmo ponto de vista. Volto pela avenida paralela onde tem outras bifurcações. Daqui, onde leio com mais clareza as últimas narrações que participei, lembrei-me quando eu lia sem a necessidade de saber se aquilo era aclamado ou não pela crítica, se era clássico ou não. Nessa época, eu era menos bombardeada com narrações que não sei se são feitas por robôs. As narrações que eu era como pessoa me distinguiam mais dos outros, portanto eu era mais pessoa.

Bom relembrar que dias desses me vi sendo professora ensinando como se formam as palavras. Nesse dia – talvez como um dos faróis que iluminaram aquela estrada – vi que participar é revelar traços em comum. As narrações sempre me revelaram traços comuns a mim. E ainda que com traços em comum, era outra coisa, eram autênticas. E de acordo com o dicionário, pessoa é uma característica ou caráter peculiar que dá distinção a alguém. Muito bonito as narrações revelarem traços em comum e ao mesmo fazer-se distinguir de outra.

Reconhecer isso, aqui desse lado da avenida, vendo de outro ponto de vista a contramão em paralelo, fico aliviada. Parece que tenho reencontrado o caminho da casa da pessoa que sou. Volto, bebo água daquela fonte antiga e adormeço. Respiro e me refaço. Pego a estrada novamente, ansiosa para as próximas narrações que me constituirão como pessoa. Narrações que eu consiga ler, porque aquelas feitas por robôs eu não consigo e me fazem perder o rumo, às vezes.

CIDADE DE TRAVESSIA

Uma crônica sobre o atravessar do tempo.

Wassily Kandinsky (1866 – 1944)

Dia desses lembrei de um senhor baixo e bem aparentado que beirava seus setenta anos. Ele era advogado e eu sua secretária. Era meu primeiro emprego.

Estilo anos cinquenta, ele me intrigava com sua maneira elegante de andar. Chegava no escritório e colocava com delicadeza o paletó estendido no encosto da cadeira, alisava-o com a intenção de não amassar e arrumando a gravata e colarinho, sentava em frente ao seu computador.

Era um advogado conhecido na cidade, me dizia sempre sobre a importância da política da boa vizinhança, expressão que eu, aos quinze anos de idade, ouvia pela primeira vez.

– Você pode levar essa petição no final da Rua do Rosário?

– Sim, mas não sei onde fica, doutor.

– Aaah, querida, claro que te ensino! Você já passou muito lá, mas não deve ter olhado a placa. A partir de hoje não vai mais esquecer!

Sorria grandemente e me dava os documentos para a viagem.

Enquanto levava o que me foi pedido, a praça Tibúrcio Estevam de Siqueira, o museu Solar do Barão, a Catedral Nossa Senhora do Desterro e as calçadas de paralelepípedo me lembrava um passado que não conheci. Quase conseguia ver o movimento da rua em preto e branco tendo como referência às fotos que meu pai guardava.

Observando a expressão de cotidiano acelerado das pessoas, imaginava a mesma sensação em rostos que ali passaram séculos antes. Imaginava os bondinhos, as paqueras e os jogos de poder que o chão dali testemunhava.

Por exigência da profissão ou sinal de nobreza de alma, quando doutor B. atendia qualquer pessoa, fazia questão de ser extremamente educado. Cumprimentava apertando mãos e nos olhos mostrava menos imposição masculina e mais gentileza.

Sem muito apresso por tecnologias, ele gostava de usar calculadoras e fazer cálculos trabalhistas à mão. O escritório era simples e ele fazia questão de ter um telefone mais antigo ao lado de uma agenda telefônica.

– Pode ligar para o Dr. João para mim?

Quando o homem atendia, o doutor levantava, ajeitava com delicadeza a gola do paletó e pegava o telefone com fio que eu entregava na mesa ao lado.

– Olá, meu querido João!

E abria um sorriso sincero que, bem provável, que o Dr. João percebia.

Nunca havia um sinal de amassado que fosse em sua roupa. Estava sempre intacto dos pés à cabeça! Com o sapato brilhando, quando levantava para ir fazer alguma coisa na rua, tirava o pente fino do bolso e penteava o cabelo liso para o lado.

Lembro como se fosse hoje o dia que conheci a esposa do Dr. B. Era uma senhora linda com um xale bordado e vestido elegante, maquiagem que chamava atenção para as bochechas rosadas e olhos tão azuis que ofuscavam o brilho do ambiente! Me encantei na mesma proporção de quando via uma top model no auge da juventude.

Quando íamos almoçar, até chegar a mesa, o doutor fazia questão de cumprimentar todos os colegas do restaurante, e então puxava gentilmente a cadeira para a esposa sentar. Com muita fineza a senhora me contava que costurava suas próprias roupas e mostrava o acabamento da manga de seu vestido.  

Certo dia o doutor chorou na minha frente, parado olhando a janela com uma mão segurando o cigarro e a outra apoiada na cintura. Chorou enquanto me contava histórias da vida dele que prefiro não mencionar. Chorou como um homem bem resolvido com sua sensibilidade. Chorou de modo que, naquele momento, eu tivesse para mim que sensibilidade era uma das coisas mais bonitas.

Numa conversa ou outra o doutor citava Guimarães Rosa ou Fernando Pessoa. Eu da minha mesa, às pressas, riscava num cantinho de papel o nome do autor da coisa bonita que ele tinha falado para pesquisar depois.

Dr. B. gostava de música popular brasileira, contava sobre a repressão dos artistas na época da ditadura. Um dia perguntei:

– Como era a vida nessa época?

Ele respondeu:

–Ah querida, a vida acontecia! Muitas pessoas estavam vivendo normalmente e não sofria diretamente as ações do militarismo, mas todos nós sentíamos a falta de liberdade.

Eu ouvia com atenção de quem não sabia nada de política, porém já flertava com a liberdade.

Ele vivia cantarolando com voz bonita:

– Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês, a noiva do cowboy era você além das outras três.

Enquanto batia a caneta na mesa no ritmo da música, continuava a cantar. Eu prestava atenção, gostava de ouvir aquilo na voz dele.

Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim. Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim.

Não aguentei e perguntei de quem era a música:

– Ah, querida, você não conhece? É do Chico Buarque e do Sivuca!

Apontava o dedo pra frente e continuava:

– Grandes compositores!

No outro dia ele me trouxe um CD da Nara Leão para conhecer a música na voz feminina. Achei bonito e escrevi a letra no meu diário!

Nunca mais consegui ouvir a música sem lembrar dele, nunca mais ouvi Nara Leão sem pensar nele.

Um dia, recebi um telefonema noticiando o falecimento do doutor. Me apertou o peito!

Conviver com esse homem que atravessou décadas, me rendia uma viagem que se estendia por todo centro de Jundiaí. Ainda que soubesse pouco das narrativas que ali se edificaram e outras tantas que ocultaram, aquela região acendia em mim uma espécie de mistério e uma vontade de escrever.

Hoje, ir ao centro da cidade me trás lembranças de um passado que esse advogado me lembrou, outro que vivi sentada na praça do fórum com um caderno na mão e um outro que lá eu inventei, esse último mora no caderno que eu segurava.

CINZA

Uma reflexão acerca da transição e da celebração do cinza

A cor que não é branca, mas também não é preta. A falta da cor. O mediano. A transição do escuro para o claro, do claro para o escuro. É do cinza que venho discorrer. 

Se pudesse dar cor a esse ano de dois mil e vinte, daria a cor cinza. Parece a cor que vibra em momentos negativos. Continuo nessa temática porque parece que há uma nuvem cinza pairando sobre nossas cabeças. Será que chove? Será que não chove? É sobre não saber o que vai acontecer. E é claro que nunca soubemos, mas a falsa impressão de que as coisas estavam sob controle faz falta.

Parece que não temos para onde correr, temos que olhar para o espelho. Não emanamos luz, mas também não somos só escuridão. Não estamos nos melhores dias, mas também ainda não nos entregamos. Que oportunidade viver essa montanha russa, é sinal que estamos vivos! 

Em um dia cinza em que tudo parecia desabar, uma amiga me enviou uma música. Uma música que me fez olhar com mais carinho para a cor cinza e para o momento cinza em que estava vivendo. 

Enquanto no texto anterior falei sobre a necessidade do barulho para o progresso, nesse, mostro que o olhar empático para nós mesmos e para os outros também nos leva ao progresso. É sobre olhar com amor as coisas à nossa volta. Sobre eleger e promover o amor em tempos de crise.

A verdade é que o cinza é parte. E o que é parte temos de aprender. É de partes que se faz um todo e tem hora que faltam cores mesmo. 

O cinza é ponte de travessia sob um abismo. Que bom que tem a ponte, que bom que tem o cinza, que bom que temos a oportunidade de passar sobre o abismo. E que triste passar esse período de travessia visando o que tem lá do outro lado ao invés de apreciarmos a vista da ponte mesmo que o céu esteja cinza.

Venho mais metafórica hoje. Sem muitas explicações e didatismo e sem saber se escrevo em primeira ou terceira pessoa. É mais sobre espalhar amor e dizer que também estou passando por dias cinzas. 

Tudo isso nasce de uma música. Em um momento em que eu quase estava desistindo de passar pela ponte, uma amiga me mostrou uma música. Simples e transformador! Era a música Amor Cinza do cantor e compositor Mateus Aleluia em parceria com sua filha Fabiana Aleluia. Creio que você não conheça, mas vai gostar de conhecer e vai te aquecer nesse momento cinza.

Amor Cinza
Mateus Aleluia
Na linha do horizonte tem um fundo cinza
Pra lá dessa linha eu me lanço, e vou
Não aceito quando dizem que o fim é cinza
Se eu vejo cinza como um início em cor
Quando tudo finda, dizem, virou cinza
Equívoco pois cinza cura, poesia eu sou
O traje cinza lembra fidalguia
Quarta-feira cinza é dia de louvor
Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor
Gota de orvalho prateada é cinza
Massa encefálica é cinza, amor
A purificação também se faz com cinza
Fênix renasceu das cinzas com honor
Só quero dengo quando o dia é cinza
Ler poesia e cantar ao sol
Dedilho a viola e sonho colorido
E vejo no amante que o cinza desnudou
Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor

Invista no amor, nas pessoas que promovem o amor, que lutam por amor, que vivem o amor, que não tem vergonha de amar, que considera o amor mesmo nos momentos difíceis. Invista em parcerias concretas, em pessoas que vão olhar a paisagem cinza com você enquanto estiver passando a ponte. Invista em pessoas que se emocionam com o cinza. Compartilhe, comente e promova. Vamos celebrar a vida com amor!